A história da marca familiar por trás dos uniformes de Cabo Verde, a sensação da Copa

Vozinha, goleiro do Cabo Verde, celebra após conquista contra a Arábia Saudita na Copa do Mundo 2026 — Foto: Michael Regan – FIFA/FIFA via Getty Images

Por Redaçã – Empresas & Negócios 

Cabo Verde se tornou a grande surpresa da atual Copa do Mundo, conquistando torcedores ao redor do planeta após empatar com a Espanha, atual campeã europeia, e com o Uruguai, bicampeão mundial. Sexta-feira (3/7), a seleção enfrentou  a Argentina. No rastro desse sucesso, a Capelli Sport, empresa familiar sediada em Nova York e responsável pelos uniformes da equipe, viu sua marca atingir um alcance inédito ao dividir espaço nos gramados com gigantes multibilionárias do mercado. na Sexta-feira (3/7), enfrentou a seleção Argentina.

Após três décadas no setor de vestuário, George Altirs, cofundador e CEO da Capelli Sport, encontrou o maior outdoor para o seu negócio a 5.600 quilômetros de distância do seu escritório em Manhattan. Há quatro anos, ele acompanhou o Mundial apenas como espectador. Agora, vê os uniformes que produziu com a esposa, Liz, serem exibidos ao lado de patrocinadores tradicionais do torneio, como Coca-Cola, McDonald’s e Visa.

O sucesso da seleção do território de apenas meio milhão de habitantes impulsionou não apenas a marca, mas também os próprios atletas. Após a atuação contra a Espanha, o goleiro Josimar José Évora Dias, conhecido como Vozinhaviu seu número de seguidores no Instagram saltar de 50 mil para mais de 17 milhões em poucas horas.

Com o desempenho em campo, Cabo Verde ficou perto de avançar para a fase eliminatória logo em sua primeira Copa do Mundo. Para Altirs, ver sua empresa no principal palco do esporte é a realização de um sonho.

“É indescritível. É uma loucura”, disse Altirs ao portal da revista Inc., revelando que seu telefone não para de receber mensagens de parabéns. “Queremos fazer coisas que as grandes empresas não querem ou não conseguem fazer.”

O empresário reconhece o tamanho da concorrência, mas enxerga valor em atender mercados que não recebem a atenção das líderes do setor.

“A Nike é uma gigante. A Adidas também é uma gigante, mas há espaço para que outras empresas se destaquem e atendam às necessidades de seus parceiros, mesmo quando estes são negligenciados, mal atendidos ou ignorados pelas gigantes”, afirmou Altirs à publicação.

A parceria é valorizada também pela federação do país africano. Paulo Santos, vice-presidente da Federação Cabo-Verdiana de Futebol, destacou à Inc. que a marca vai além do papel de fornecedora, atuando como uma verdadeira parceira comprometida com as ambições da seleção.

George Altirs, Fundador e CEO da Capelli Sport — Foto: Reprodução/ X
George Altirs, Fundador e CEO da Capelli Sport — Foto: Reprodução/ X

Estratégia para quebrar o monopólioAtualmente, cerca de 75% das equipes que disputam a Copa do Mundo vestem Adidas, Nike ou Puma. Para encontrar uma brecha nesse mercado concentrado, a Capelli adotou um processo de eliminação estratégica que começou com uma conversa entre Altirs e o vice-presidente executivo da empresa, Brian Remedi, durante o torneio no Catar, quatro anos atrás.

Após mapear federações menos conhecidas, a empresa fechou o acordo plurianual com Cabo Verde em outubro do ano passado. Os designs dos uniformes ficaram prontos em apenas uma semana, agilidade que o CEO atribui à sua cadeia de suprimentos verticalmente integrada.

A companhia emprega cerca de 3.000 pessoas em fábricas próprias na China e em Bangladesh, além de 500 profissionais na área administrativa. Os modelos — que trazem padrões geométricos inspirados nas ilhas e camisas de aquecimento com estampas de bocas de tubarão — foram elogiados pela mídia especializada internacional.

Explosão nas vendas e estrutura de mercado

A alta procura superou as previsões iniciais de faturamento da marca, gerando inclusive pedidos antecipados para a camisa oficial do goleiro Vozinha. Apesar do crescimento repentino, a estrutura da empresa já estava preparada para o volume.

A Capelli Sport foi lançada em 2011 como um braço do GMA Group, um conglomerado familiar autofinanciado que produz roupas e acessórios sob licença para grandes marcas globais e propriedades intelectuais que vão da Disney à Marvel. O grupo fatura mais de US$ 300 milhões (cerca de R$ 1,56 bilhão) anuais no atacado e alcança quase US$ 1 bilhão (cerca de R$ 5,22 bilhões) em valor total de varejo.

Em 2024, a divisão esportiva tornou-se uma empresa independente após uma rodada de investimentos minoritária com amigos e familiares. Além da Copa do Mundo, a marca já garantiu presença nas Olimpíadas de 2028, em Los Angeles, onde fornecerá os uniformes das equipes americanas de lacrosse e hóquei em campo.

O desafio da concorrência

A rápida ascensão também trouxe dores de cabeça. Segundo informações da Inc., a Capelli enviou uma notificação extrajudicial para a Tempo, antiga fornecedora da seleção de Cabo Verde. A fabricante austríaca começou a vender os uniformes antigos da equipe por US$ 39 (cerca de R$ 203,58), enquanto os modelos oficiais atuais são comercializados no site da Capelli por US$ 95 (cerca de R$ 495,90).

Apesar do incômodo com o mercado paralelo, Altirs minimiza o impacto das imitações e prefere focar no relacionamento de longo prazo com o país africano, adotando o lema que ganhou força nas redes sociais: “Pequeno demais para ser visto. Grande demais para ser ignorado.”

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